sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Inventário da Exaustão

Trinta anos de passos,
no mesmo corredor de vidro.
Cinquenta anos de fôlego,
num ar que não alimenta.

Cansado de ser a ponte,
enquanto o rio embaixo secou.
Cansado de traduzir o sagrado
para quem só entende o lucro.

O ego morreu de cansaço.
Não foi uma morte heroica,
foi um suspiro na cozinha,
com folhas espalhadas no chão.
Não espero mais o "sim".
Não temo mais o "não".

O reconhecimento é um fantasma
que não assombra mais a casa.
Sou o que resta do esforço.
Um vazio que caminha,
bate o ponto,
e volta para o nada.

Finalmente,
não sou ninguém.
E, enfim,
estou em paz com o vento das coisas.

Folhas ao chão

Escrevo.
Sem fim,
no Vazio.

O vento leva:
Folhas,
Palavras,
o esforço de preencher.

O vento leva,
tudo!

Ficam a mesa,
as folhas em branco,
a impermanência.

Fica o silêncio,
de quem entendeu,
que a vida nos cala,
para não sermos ruído.

Nada se perde no vento,
quando o vazio é a morada!